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   Pagamento Antecipado da Água

Antônio Linus Rech (*)

Grandes mudanças nos conceitos e processos empregados na hidrometria estão para ocorrer nos próximos anos. Os atuais medidores de água, os taquimétricos, volumétricos e similares, estão com os dias contados. As indústrias fabricantes desses equipamentos deverão inovar e diversificar suas linhas de produção, sob pena de ficarem fora do mercado. As que fazem essencialmente hidrômetros convencionais passarão por sérias dificuldades. A causa de mudanças tão drásticas é a implantação do pré-pagamento, largamente utilizado no setor telefônico e agora chegando ao saneamento.

Na telefonia, o pagamento antecipado gera desconfortos aos usuários pelos conceitos que as operadoras impõem. Lá, além de pagar antes pelo serviço prestado, o usuário paga mais caro, o que é incompreensível. Esta questão ainda não está presente no saneamento mas, registre-se, não poderá ser dessa forma. Que se paguem as mesmas tarifas ou tarifas inferiores, já que o pagamento é antecipado, nunca valores maiores.

O sistema é teoricamente simples e sonhado há anos pelos dirigentes comerciais das operadoras de água/esgoto. Em síntese, o consumidor compra na farmácia, padaria, supermercado ou qualquer estabelecimento do gênero, um cartão contendo certa quantidade de créditos a serem convertidos em água. Um contato telefônico com a operadora ou a transferência de informações diretamente ao hidrômetro – um novo equipamento, diferente dos atuais – libera o volume comprado. Seriam colocados à venda cartões com volumes específicos de 5 m³, 10 m³, 20 m³ e por aí vai.

Outra modalidade, mais eficiente e que certamente cairá melhor no gosto do público, está em uso em Palmas (TO): o consumidor compra tantos reais de água, de acordo com sua conveniência. Neste caso, cada usuário tem seu próprio e único cartão desenvolvido para receber e emitir sinais de rádio freqüência (RF). Em vez de comprar um novo cartão a cada necessidade, o consumidor leva seu cartão e o recarrega com créditos a serem transformados em água, após transferir a informação ao medidor. Tudo feito eletronicamente e de forma muito simples. Não há necessidade nem mesmo de digitar dados ou fazer ligações telefônicas. Basta passar o cartão em frente ao leitor instalado dentro de casa e o sinal é transferido por ondas de rádio, liberando a passagem de água.

Os benefícios desta segunda modalidade são enormes, especialmente para as populações de baixa renda. Ao comprar R$ 5,00 de água, o usuário está movimentando sofisticada tecnologia na retaguarda que vai transformar o valor adquirido em litros que lhe serão disponibilizados posteriormente. Para o usuário, toda essa tecnologia é invisível, mas o fato de poder decidir o quanto comprar de água é vantajoso. Experiências feitas em Abadia de Goiânia (GO), demonstraram que a população aceitou o sistema com pré-pagamento. O consumidor se mostrou satisfeito pelo fato de poder decidir quando e quanto comprar de água. Ficou facilitada a administração do orçamento doméstico.

Foram encontradas outras vantagens que previamente se apresentavam como dificuldades, entre elas, a eliminação da conta a ser paga em um determinado dia e com o valor montante do consumo mensal. No novo sistema, a compra de água passou a ser quinzenal ou semanal, de acordo com o dinheiro disponível no bolso. A eliminação de futuros débitos pendentes, caso não possa pagar a conta do mês, também foi citada pelo consumidor como um benefício. Em resumo, houve flexibilização no pagamento que agora é feito como se houvesse parcelamento do valor mensal. A cada semana, ou mesmo a cada dia, é possível comprar o quanto quiser de água.

O fato de ficar sem o produto, se não tiver dinheiro para novos cartões ou novos carregamentos de créditos, é negativo para o consumidor. Sem dinheiro, ele não tem água, assim como não tem o cigarro ou o chopinho.

Para as operadoras, a inadimplência é reduzida a zero. São eliminados integralmente os custos com leitura de hidrômetros, emissão e entrega de contas e a mão-de-obra empregada nestes serviços. Segundo especialistas, haverá diminuição de despesas da ordem de 14%.

Os preços dos novos equipamentos são maiores do que os dos hidrômetros atuais. Mas os benefícios operacionais, especialmente a eliminação da inadimplência e o ganho na redução de custos comerciais, viabilizam o projeto.

Tecnicamente, as alternativas são várias. Qualquer sistema deverá ser dotado de uma válvula solenóide a ser aberta eletronicamente, por equipamento que controla a existência de créditos disponíveis, e ser fechada quando os créditos acabam. Já existem estudos e softwares desenvolvidos para levar em conta situações particularizadas, como o término de crédito em horários inconvenientes. Se eles acabarem numa madrugada de sexta-feira, por exemplo, automaticamente é antecipado um crédito para consumo durante um ou dois dias. Na recarga posterior do cartão, o valor antecipado será subtraído.

Os equipamentos a serem postos no mercado podem usar os atuais hidrômetros que sofreriam adaptações ou seriam adicionados de um módulo eletrônico, especialmente desenvolvido. Deverá predominar, no entanto, o dispositivo que está em uso na cidade de Palmas, onde estão instalados medidores eletrônicos sem peças móveis. Esses aparelhos, uma novidade no mercado de medição de água, estão em desenvolvimento há cerca de cinco anos em Goiânia, com tecnologia e capital inteiramente nacionais. - 12042002.

(*) Antônio Linus Rech é engenheiro mecânico, administrador de empresas, administrados público, consultor para o saneamento básico e autor do livro "Água, Micromedição e Perdas".

 

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